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domingo, 10 de agosto de 2008

Sei que a noite pertence aos que sonham;

_____a noite pertence aos que esperam;

_____ a noite pertence aos que desesperam;

_____ a noite pertence aos que amam;

_____ a noite pertence aos que imaginam;

___________pertence aos que se revoltam;

___________pertence aos que se preocupam;

___________pertence aos que se procuram;

__________________aos que não se calam;

__________________aos que não se conformam;

__________________aos que não aguentam mais!

Nada quero ver,

Só quero sonhar!

Agora já não há angústia dentro de mim.

Este corpo já conseguiu aprender.

Aprender a esperar.

Sei que valerá a pena, no fim.


Agora que já nada parece tão incerto

Já não custa tanto esperar.

Agora, cada quimera

É um plano. E, quando desperto

Do meu eterno sonhar,

A minha alma já não desespera.


Agora faz muito mais sentido,

Sonhar já não é só sonhar,

Mas sim programar o futuro mais próximo.

Ultimamente nem tenho tremido

Com o medo e a raiva que o facto de ter de esperar

Fazia nascer dentro do meu ócio.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Sinto vontade se sair para a rua

E correr pelo Montalvão fora

Até entrar na baixa!

Vontade de me meter pela rua do Roma

E correr até alcançar a Biblioteca Municipal!

Por artes mágicas, trepar pela parede acima

E partir aquela janela que está atrás da secretaria

Das bibliotecárias,

Aquela onde elas têm os computadores

Com a lista dos livros,

Onde nunca estão os livros que eu quero

Mas que depois encontro na prateleira!


Apetece-me caminhar por entres as prateleiras

E ir abraçar as encadernações

Como se fossemos todos corpos nus em êxtase!

Sim, êxtase, porque a poesia me deixa high,

Me embriaga e me enlaça como se nada mais existisse.


Hoje quero-vos,

Oh grandes poetas de outrora!

Quero ler os vossos versos e chorar convosco,

Rir-me convosco,

Saltar convosco,

Revoltar-me convosco,

Emocionar-me convosco,

Viver e Morrer convosco!


Esta noite só a poesia importa,

Não sei explicar, não quero explicar,

Só quero poesar!

Quero ler até me doerem os olhos,

Até que as pálpebras se me fechem

E eu cabeceie e bata com a cabeça nas prateleiras

E me levante e corra, tropeçando,

Escadas abaixo,

Para ir molhar a cara ao lavatório!

Depois quero voltar e deitar-me no chão e ler mais e mais e mais!

Sentir que os versos se enlaçam em mim como tendões que se enrolam na minha carne!

Quero que as vossas palavras percorram o meu organismo como micróbios

Que corroem os meus órgãos e os devoram!


Por fim,

Quando mais não puder,

Quero desfalecer naquele chão de madeira velha,

E dormir, fundindo-me com a madeira,

Fazendo com que o meu corpo se torne parte

Daquele sitio que tanto amo e que me faz sonhar casa vez mais!

Agora já só interessa dançar…

A dança acabou de começar!


Agora que esta dança começou,

Já nada mais me pode interessar.

Agora só me apetece dançar!

O que a minha pessoa experimentou

Até agora, de uma prova não passou.

Eu consegui iniciar este bailado

E agora segui-lo-ei até estar terminado.

Dançando receberei a condecoração

Divina por toda a desesperação

Por que a minha alma tem passado.


Agora já só interessa dançar…

A dança acabou de começar!


Dançarei aqui na minha casa,

Na praia, na relva verdejante,

No campo, na areia brilhante,

Na terra, na fogueira em brasa!

Dançarei como se uma alva asa

Tivesse, de cada lado de mim, nascido.

Como se o futuro não fosse tremido…

Agora tudo depende só de mim,

Só eu controlarei que tipo de fim

Será para este bailado escolhido.


Agora já só interessa dançar…

A dança acabou de começar!


Mas esta dança só acaba se eu quiser!

Eternamente, todos se recordarão

Da existência deste intrépido leão,

Se os passos mágicos eu fizer.

Não sinto que esteja a ser corajosa,

Apesar de saber minh’alma virtuosa.

Porque de não singrar tenho medo.

É isso que me impulsiona, é esse o segredo.

Sei que me ajudará a esperança ditosa.


E, de qualquer modo, agora só interessa

Que a dança já se iniciou e tenho pressa!


Agora já só interessa dançar…

A dança acabou de começar!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Oh, meu querido e azul oceano…

Há quem diga que Setúbal não tem mar.

Dizem que está errado assim denominar

Esta dádiva que foi dada ao povo humano.

Dizem que este elemento belo e tirano

Não passa de um rio. Mas é mar, sim!

Comprova-o o seu cheiro, que em mim

Faz sempre crescer a alegria de viver.

É de ti que mais saudades vou ter,

Meu mar… meu amor por ti não tem fim

quinta-feira, 24 de julho de 2008

poema já com uns meses...

Sábado, 10 de Maio de 2008 -12:43:44



Caminho pela baixa de Setúbal

Como caminho pela minha vida.

Vou andando, calma e rapidamente,

Observando de um modo global

Esta gente alegre e corrompida.


Assim percorro a minha cidade.

Dói-me o ombro e a mala pesa

Como me pesa a vida e tal

Como me pesa e magoa a felicidade.

Pesa-me a ignóbil certeza


De que vou encontrar pessoas

Que conheço nesta minha aldeia

Que me acompanha desde o nascimento.

Pesam-me as encadernações boas

Dos livros que trazem cheia


A minha alma. Meus companheiros

Que trago da minha segunda casa,

A minha biblioteca, minha amiga Real,

Pesam-me as palavras de tinteiros

Alheios, cuja fé e cuja Asa


Transporto comigo. Pesam-me, também,

O meu caderno e a minha caneta

Com que escrevo o que penso

E o que à imaginação me vêm.

Pesa a minha letra feia e preta


Que ainda diz mais do que eu.

Pesa-me o leitor de Ém-Pê-Três,

Uma das poucas tecnologias

De que realmente o meu

Ser necessita. Sem porquês,




A música acompanha-me…







Fundir-me-ei à Natureza
e amarei a sua verdade.
Absorverei a sua pureza
e conseguirei a eternidade.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

2 meses!


I

Oh Coimbra, que te conheço bem

Dizer não posso, é verdade…

Mas, apesar disso, teu nome contém

A doce carícia da liberdade.


De cada vez que penso em partir

Para uma desconhecida cidade,

Sinto um arrepio pelo corpo a subir,

Fazendo com que não sinta saudade.


Fecho os olhos e não cesso de imaginar

Que percorro esta ou aquela rua.

Mentalmente, não paro de explorar


Cada local, cada canto, cada momento

Desta cidade que espera que a possua.

Oh Coimbra, dá-me o teu alento!


II

Oh, honrada cidade dos estudantes!

Já faltou mais para que junto a ti

Estivesse! Penso em ti todos os instantes

Em que sonho! A minha mente sorri


Com o suave toque da independência

Que tu representas para mim!

Deus, aumentai a minha paciência,

Ajudai-me a não alcançar o meu fim


Antes de partir para as descobertas

Que me esperam! Não descobrirei

Mares inóspitos nem terras desertas


Mas encontrar-me-ei. Contigo,

Viverei, criarei e aprenderei

Muito mais do que aqui consigo!

sábado, 14 de junho de 2008

Se dor não há,

A poesia não cresce.

Se grande tristeza

A vida não nos dá,

O poema não floresce.


Um verso é uma rosa,

Num canteiro de sentimentos

Maleficamente plantada.

Se a água melindrosa

Não amenizar seus sofrimentos,


A flor não prospera.

Se apenas houver alegria,

O verso pode, com certeza,

Nascer. Mas não supera

Uma cantilena popular e fria.


Apenas se o sofrimento

Devorar as entranhas

Da pessoa iluminada

Que escreve, o padecimento

Das suas façanhas


Poderá dar uma vida

E um significado

Aos seus pesarosos poemas.

Assim, uma mente ferida,

Envolvida em pecado,


Será a do melhor jardineiro.

Aquele que melhor alimenta

As suas rosas e dilemas,

Aquele que se oferece por inteiro

À poesia, que sua alma acalenta.

sábado, 3 de maio de 2008

20:20 – 09/04/2008















Aquando da minha criação,
Deus não me concedeu um coração.
Mas, não é um defeito,
Isto que está dentro do meu peito.
Aqui dentro, protegida pelas costelas,
Jaz uma caixa, incrustada de coisas belas.

Não de jóias que se possam comprar,
Mas sim daquelas que custam a ganhar.
Cicatrizes que contam longas histórias,
Repletas de dolorosas glórias.
Marcas definitivas de experiências
Para sempre nas minhas demências.

Em vez de sangue, nas minhas veias,
Correm vontades, correm ideias
Infinitas, que magoam e dilaceram
Este corpo de que se apoderam.
E, no meu cérebro, estão guardadas
Todas as coisas pelas artérias levadas.

Porém, a caixa, se vazia não está,
Eu mal sinto o que está lá!
É que este objecto magnifico e inumano
Foi talhado pelo meu pensamento tirano
Que, ainda antes de eu nascer,
No meu ser se fez desenvolver.

A caixa tem o formato do sonho
E está guardada pelo mais medonho
Dos vigilantes. A Dúvida maldita
Que constantemente me deixa aflita.
Lá dentro, pouco se encontra…
Poemas, rebeliões, historias de faz de conta,

Os únicos triunfos que me pertencem
E que realmente me trazem bem.
Assim, claro é o que me move
Nesta existência. A vazia caixa comove
A minha pessoa e sou impelida
A esforçar-me por lhe dar vida.

Agora percebes porque não tenho coração?
Porque algo detentor de mais paixão,
Integridade, nobreza, riqueza e poder
Se abriga no meu seio. É o desejo de ser
Sempre mais, de alcançar a glória
De um dia deste mundo ser história.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

27/02/2008 - 22:50

Hoje à noite caí na cama
como alguém que cai no caixão.
Alguém que já não ama,
Alguém onde já não bate um coração.

Apenas sentia o peso
Do meu corpo dorido.
Este estado pouco coeso,
Em que nem sei o que é vivido,

Faz com que se cansem meus olhos.
Ondulam-se então os folhos,
as camadas da minha vida.

Ando docemente cansada
por esta vida enamorada,
por esta juventude tremida.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Talvez eu não esteja bem…

Talvez eu não deva sonhar,

Talvez eu precise de me concentrar,

Talvez eu tenha o que ninguém tem,

Talvez eu deva parar,

Mas será que não chega de esperar?


Talvez eu seja paranóica,

Talvez eu reflicta demais,

Talvez eu precise de respirar,

Talvez eu deva ser estóica,

Talvez eu vá sempre querer algo mais,

Mas será que os sonhos vou alcançar?


Talvez eu seja louca,

Talvez tenha nascido no sitio errado,

Talvez eu seja imperceptível,

Talvez esta vida seja pouca,

Talvez o meu ser esteja cansado,

Mas será isso tão incrível?


Talvez algo me espere longe daqui,

Talvez nada mude jamais,

Talvez o sonho se vá desvanecer,

Talvez eu perceba que enlouqueci,

Talvez não haja algo mais,

Mas quero ser eu a viver!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Hoje sinto que sou jovem,

Que sou real e que sou inteira

E que a vida se prostra à minha frente.

Sei que as ambições que me movem

Me fazem viver desta maneira,

Sempre com o futuro na mente.


Por vezes sinto que estou prestes a morrer

E sinto-o com tamanha certeza

Que, me despeço, antes de me ir deitar,

Como se nunca mais fosse ver

Aqueles que amo. Faço-o com clareza

E consciente de que vai tudo terminar.


Mas, quando nesse estado estou,

Sinto em mim uma grande paz

Por saber algo realmente.

Sei, então, que a minha pessoa amou

E aproveitou e se divertiu e foi capaz

De viver, sempre, sempre, continuamente.


Quer me sinta mesmo à beira da vida

Ou me sinta mesmo à beira da morte,

Fico feliz, sinto-me um todo, completa!

A morte não é por mim temida

E não acredito que seja mesmo sorte

Viver uma existência longa e obsoleta.


Sou jovem e sou-o agora, amanhã,

Depois e ainda depois disso! Jamais,

Em tempo algum, deixarei de o ser.

Porque se eu, guardiã da jovialidade,

Algum dia deixar de querer mais

E envelhecer, já não me valerá viver.


E é por isso que, com franqueza,

Não me importa o que sinta,

Quer seja bom, ou mau, ou indefinido,

Desde que o saiba com firmeza!

Toda a dúvida está, agora, extinta

E para sempre foi por mim banida!



10:41

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

...

Daqui a uns anos vou estar morta,

Vocês têm que ter essa consciência

Quando vos peço para me deixarem

Ser livre. Daqui a uns anos já não importa,

Já não vou estar na adolescência.

Já não vai interessar o facto de me abraçarem


Eternamente com medo de me perder.

Porque daqui a uns anos poderei

Fazer o que quiser. Que interesse tem

Poder ir sempre para onde me apetecer

Se não há ninguém para dizer “Eu confiei

Em ti e deixaste-me ficar bem”?


É por isso que vos peço calmamente

Que confiem e não tenham medo

Porque há muito que não sou criança.

Confiem em mim no momento presente

E eu prometo estar de volta mais cedo

Do que imaginam. Não lutem contra a mudança


Porque aprendi dificilmente que é inevitável.

Sei que algumas vezes vos desiludi

Mas se pensarem bem, não foram

Quase nenhumas. Tenho uma admirável

Resistência à tristeza e sempre cri,

Mais que vocês, que o dinheiro não


Interessa. Vocês sabem que sou feliz

E que vos amo, independentemente

Dos bens materiais que não puderam

Dar-me. E acreditem que a raiz

Daquilo que sou foi grandemente

Influenciada pelo que não me deram


E que os outros pais deram às outras crianças.

Raramente vos pedi que me dessem coisa alguma

E quando o fiz, foi apenas por necessidade.

Por isso, dêm asas às minhas esperanças

Não sejam responsáveis pela queda de mais uma

Das minhas expectativas de felicidade.


Percebam… Percebam por favor

Que o tempo passou, que eu já cresci

E que esta oportunidade eu mereço.

Façam-me esta vontade, por louvor

A Deus… Percebam que já aprendi

E que sempre vos respeitei, com apreço.


Eu percebo que vocês tenham medo

Pois apenas me têm a mim. Mas preciso

Mesmo de me libertar e de ir explorar

Este grande mundo, para que nenhum segredo

Ele mantenha e para que seja conciso

O meu conhecimento. Tentem não pensar


Que algo terrível poderá acontecer

Porque isso não está nas vossas mãos.

E não pensem que não tenho nenhum temor,

Porque eu também temo o decorrer

Do tempo e todas as suas bênçãos

Ou maldições repletas de dor


Que me esperam. E estão já ali adiante,

Vou encontrá-los assim que conseguir

Ultrapassar este obstáculo que vocês

Me estão a por. Vou levar a minha avante

E na estrada da Vida vou prosseguir.

E quando chegar ao meu destino direi “Vês,


Nada de mal veio ao meu encontro.

Deparei-me com algumas coisas menos boas

Mas que são necessárias para aprender.”

Por isso, Helena, não anseies pelo reencontro

Com lágrimas nos olhos. E Rui, as pessoas

Não têm culpa de que eu tenha de crescer.


Eu vou, seja hoje, ou amanhã, ou ainda depois,

Vou realizar os meus sonhos e desejos.

Mas preferia, com toda a certeza, ir hoje ainda.

E preferia que soubessem e me abençoassem, pois

Custa-me deixar-vos sós, sem os meus gracejos.

Percebam que tenho de ir agora que o dia finda…

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A Celta


Tratava-se de uma daquelas tardes silenciosas

Daqueles sábados terrivelmente fastidiosos.

Mas, para aquelas duas pessoas,

Estas eram horas terrivelmente maravilhosas

Pelas quais ambos estavam sempre ansiosos.


Em lado algum daquela casa se via luz,

Excepto na ténue chama dançante

Da vela branca que ardia sem parar.

E aquele clarão amarelo, que os seduz,

Iluminava aquele serão triunfante.


Numa enorme banheira de metal,

Com possantes pés também metálicos,

Se davam aquelas conversas boas

Que fortaleciam aquela relação fenomenal

Com os seus fantásticos temas alquímicos.


Juntos, o filho pequeno e sua mãe,

Se banhavam sempre conversando.

O menino, sem nunca parar de a amar,

Ouvindo quantas virtudes ela tem

Para lhe ensinar, ficava desfrutando


Das histórias que ela tinha para contar,

Cada uma melhor que a anterior.

E a mãe, envolvendo-o nos braços,

Amava-o com todo o afecto que se tem para dar.

Aqueles momentos, todos de pendor


Altamente pagão, justificam as suas vidas.

Um dia, o menino colocou-lhe uma questão.

“Mãe, porque é que raramente acendemos luzes?”

Ela colocou-lhe água sobre as feridas

Que tinha no rosto, devido a qualquer confusão


E começou, então, calmamente, dizendo:

“Há muito tempo, quando a Deusa era adorada

E as pessoas carregavam flores nos regaços,

Não existia este desperdício tremendo

Daquilo que a natureza nos dá. Louvada,


A Terra dava aos homens o necessário

Para que eles pudessem sobreviver.

E, nesses tempos, as únicas luzes

Que eles conheciam eram as do temerário

Fogo. Jamais o deixavam morrer


E a Deusa jamais permitiu que deixasse

De os aquecer e iluminar. E assim nasciam,

Viviam, eram felizes e morriam, sempre belos.

E se algum deles, por ventura, imaginasse

Que, no futuro, as lâmpadas existiriam,


Seria considerado louco, decerto!”

Sobre as palavras da mãe ele ponderou

Durante algum tempo, calado.

Mas, de novo, ele a questionou:

“O povo da Deusa adorava-a a céu aberto,


Não era? Mas, se tanto a amavam

Porque nunca nenhum templo lhe foi construído?

Ela colocou-lhe água sobre os cabelos

Louros e arruivados que brilhavam

À luz da vela. “Porque, meu querido,


São um só, a Deusa e a Natureza.

E o seu povo vivia em casas de madeira,

Cobertas com colmo, sobre o relvado

Que ela criara com delicadeza,

Assim como criou a terra inteira.


Por isso, se ela é toda a Natureza,

O seu povo deve idolatrá-la no exterior

Que é, afinal, o seu reino. Assim,

As suas gentes podiam usufruir da beleza

Que ela lhes dera com todo o amor.


E é por isso que não gosto de electricidade.

Porque a Deusa criou o Sol e a Lua

Para nos iluminarem neste mundo escuro.

E não podemos deixar que esta atrocidade

Arrebate as nossas vidas e as polua.


E é por isso que no campo vivemos.

Porque as estrelas ajudam a dar a luz

Que a Lua – e eu não a censuro –

Não pode dar sozinha. Porque podemos,

Observar as figuras que cada estrela produz.


E é por isso que na barulhenta cidade

Não se vêm tantas estrelas como aqui.

Porque a Deusa quer que, como um delfim,

Eu e tu e todas as pessoas vejam a beldade

Que ela criou e usufruamos dela, daqui,


Do campo, da Terra, da Natureza.

Quer seja no poderoso mar,

Ou nas majestosas montanhas,

Ou em qualquer lado onde a sua pureza

Se possa livremente observar.”


O menino acariciou a água fria

Com as suas pequenas mãos claras,

Imaginando o maravilhoso povo antigo,

Cujos ensinamentos a mãe seguia

E que já ouvira dizer serem bárbaras.


Mas a ele, nada disso interessava.

E ele imaginava-os de novo

E imaginava a Deusa e suas façanhas

E ficava embevecido e amava

A sua imagem e a do seu povo.


E a mãe colocava-lhe água sobre os braços,

Arrepiando-o agradavelmente. E ele abraçava-a

E sabia que seria sempre seu amigo.

E na cara dela, via da Deusa os traços

Divinos e imaginava-a na floresta e amava-a.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Uma das coisas soltas que escrevo e depois encontro...

Encontram-se a sofrer, ó desamparados,

Porque a morte levou alguém que amavam.

E se meus pêsames vos entregasse, ó abençoados,

Que diferença faria? Que saudades travavam?

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Economia


Compreendo…
Anda-me a apetecer tudo largar
P’ra ir procurar algo mais.
Sinto que já não me entendo
E que já não sei o que pensar…
Estou perdida entre meus “ais”!

Estou imersa nos “ais” que foram ignorados
E quero forçar-me a mantê-los enterrados.

(Só p’ra teres noção
Do que faço enquanto te escrevo,
Estou p’ra aqui deitada de lado,
Embrulhada na roupa da cama quente,
Resistindo à grande tentação
De parar de estudar como devo,
De atirar a Economia para o Passado
E pensar em algo mais pertinente…)

Concordo… Este ano parece que a falsidade voltou a estar na moda
E, de certo modo, não consigo esconder o quanto isso me incomoda.

Gostava de poder fugir, Rodrigo,
A sério que sim…
Mas a confiança que meus pais têm em mim
Muito me custou a conquistar, meu amigo.

E desiludi-los agora,
A um ano de ir para a Universidade,
Não está nos meus planos, não por ora…
Esta é a pura verdade…

Ultimamente,
Tenho sentido a minha poesia artificial e forçada
Mas agora está a sair-me tão naturalmente
Que não consigo controlar o natural nesta rima amada.

(E já caguei para a economia,
Nem sei se a quero perceber…
Mas que coisa mais vazia
Que me fazem aprender!)


01:48
09/11/2007

...

Parece que me foi tirada toda a energia
Que uso para tanto conversar…
E neste inconsciente acto de rebeldia
O meu desejo é apenas de pensar.

Sentada nesta sala de aula, aqui parada,
Não sinto vontade nem de rir.
Sinto tudo mas não sinto nada…
Ó Deus, porque tenho de sentir?

Envolvida num transe inconstante,
Pego numa madeixa de cabelo escuro
E analiso-o como se fosse importante,
Sempre com os olhos no futuro

O cheiro que na minha mão ficou,
Embrenhado bem fundo nos meus medos
- Memória de quem comigo se quedou -
Entra em mim, penetrando meus segredos.

Toda a ilusão que vive na minha mente
É visível através de meus olhos castanhos.
Basta que olhem para mim intensamente
E verão todos os espectros estranhos

Que passeiam nos meus pensamentos,
Brincando com eles, brincando comigo,
Criando mil fictícios tormentos
E vencendo quiméricos perigos.





08/11/2007
12:37

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O Desconhecido

Leio Pessoa como se não houvesse amanhã

Enquanto oiço as musicas mais deprimentes que existem.

Sinto que tudo o que sinto é matéria vã

E que não justifica os sentimentos que persistem.


Mas se sou feliz, se sinto completa minh’alma,

Então porquê este mórbido fascínio pelos que falharam?

Percebi há pouco que esta gente me acalma

Porque todos eles ilusões e sonhos inúteis amaram.


Porque sinto que morro, que me mata o futuro…

Este futuro cruel que me corrói interiormente,

Que me faz pensar o quão doloroso e duro

É o sonho. Pergunto-me porque sonho constantemente…


O que mais me faz espécie nesta situação

É saber que o ignóbil futuro eu desconheço.

Preciso de controlo, criei esta habituação

A ter de perceber tudo o que sinto. E adormeço


Com esta dúvida que me não abandona.

É aqui que a minha admiração pelos falhados jaz,

Porque com eles todos os meus medos vêm à tona.

E é isto que não conhecer o futuro me faz.


Questiono-me, mais que tudo, sobre meu fim.

Será que de nada serve este permanente criar

De ilusões e quimeras dentro de mim?

Chegará o dia em que irei minha vida terminar?


Chegará o dia em que a alegre Catarina

Sentirá que já não há mais nada a fazer?

Será que ela sentirá que a desilusão a domina

E descobrirá que não vale mais a pena viver?

domingo, 21 de outubro de 2007

M. H.

I

Há dois anos que me deixaste, ó Maria Helena…

Cresci e metamorfoseei-me imenso desde então.

Lembro-me tão bem de ti, de quando te dava a mão

Para te ajudar a caminhar… lembro-me e tenho pena…


Pena de que já cá não estejas, pena de já não te abraçar

Porque foste, és e serás grande parte de mim.

Desde pequena que te ouvia desejando o teu fim

Mas quando este chegou, será que deixaste de ansiar?


Onde quer que tu estejas, lembras-te da tua neta?

Lembras-te de quando nos sentávamos no sofá

E me pedias para te ler? Ralhavas por ser irrequieta


Mas sei o quanto o adoravas. E as nossas discussões?

Lembras-te de quando berrávamos e dizíamos “és má!”?

E quando te levava ao hospital? Oh! Quantas aflições…




II

Numa prateleira do meu quarto, jazem livros de Eça de Queiroz,

No meu décimo ou decimo primeiro aniversario mos deste,

E, enquanto os desembrulhava, tu, muito feliz, me disseste

O quão brilhantes eram, com aquela tua lânguida e lenta voz.


Não gostei de os ter recebido, na altura queria outro presente.

Tentei lê-los, maior esforço não me poderias ter pedido.

Desde pequena que sempre adorei ler, lia quase de tudo, era sabido,

Mas aquelas longas descrições, para me cativar, não foram suficiente.


Tenho pegado imenso neles, sabes, de há um ano para cá…

E afeiçoei-me às histórias do nosso Eça de tal maneira,

Que quando não tenho nada para fazer subo para o sofá


Tentando alcançar a prateleira, e os livros cheios de pó.

Depois escolho uma obra, e sento-me a tarde inteira

E ao ler, penso em ti, recordo-te, minha querida avó.




III

Tal como eu, Maria Helena, nunca tiveste irmãos

E penso que é por isso que nos dávamos tão bem!

Lembro-me de aproveitarmos as horas que a noite tem

Para conversarmos, deitadas, dando as mãos.


Foste a única pessoa com quem conversei noites inteiras,

Noites apenas interrompidas pela pausa da ceia.

Contaste-me quase toda a tua vida, que foi cheia

De peripécias. Éramos duas coscuvilheiras.


Sou capaz de relembrar teu cheiro perfeitamente,

Sou capaz de sentir o teu corpo encostado ao meu,

Enquanto te queixavas do meu avô ter sido ateu,

Ou enquanto dormias, ressonando ruidosamente.


IV

Não esqueço que foste tu quem pagou minha educação,

Quem sempre auxiliou os meus desfavorecidos pais.

E eu estive contigo, na doença, apartando teus “ais”,

Enquanto me davas, inconscientemente, uma lição.


Foste tudo menos perfeita, todos o sabemos.

E para a minha mãe foste mais do que cruel,

Ela nunca conhecerá o amor de mãe, eras como fel,

Amarga e nós nunca o esqueceremos…


Foste contra o casamento dela, o meu pai era plebeu

E não se podia juntar a uma filha do Luís Nunes.

Mas os teus impedimentos ela ignorou e esqueceu


E juntos deram origem à pessoa que escreve agora.

Pouco antes de morrer, percebeste como os unes

E pediste perdão pelos teus comportamentos de outrora.



V

Não só para eles te comportaste terrivelmente mal!

Eras católica mas todos os mandamentos ignoravas,

Foste linda e disso te serviste, muitos dizias que “amavas”…

Usaste sempre os homens com o teu poder triunfal.


Mas isso sempre soubeste não me incomodar,

Aliás, é capaz de explicar muito acerca de mim.

Juntas, éramos uma trupe, fazíamos um chinfrim

Que ninguém neste universo conseguia superar.


Em suma, tenho saudades tuas, da tua presença,

Da companhia que me fazias e que eu te fazia.

Éramos uma para a outra, constante desavença,


Constante tormenta, constante amizade!

Se pudesse pedir um desejo, então pediria

Que todas as crianças tivessem tal irmandade!